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Sala de Aula

Ambientes educativos inovadores

Laboratórios de aprendizagem a pensar No futuro

A escola atual já não está adaptada às novas gerações de alunos, pelo que se procura uma nova forma de abordar o processo de ensino-aprendizagem. Assim nasceram os ambientes educativos inovadores

Originalmente, o ambiente educativo inovador foi a tradução portuguesa daquilo que no contexto europeu se definiu como future classroom lab, ou seja, “laboratório da sala de aula do futuro”. De facto, estes espaços foram pensados como laboratórios de aprendizagem, e esta dimensão é particularmente importante, porque o que se pretende fazer é criar experimentação do ponto de vista educativo e pedagógico, para que se compreenda em certa medida como a aprendizagem, hoje, pode acontecer de maneira diferenciada. “Atualmente temos muito poucas certezas sobre as soluções adequadas do ponto de vista educativo para atuar, de forma eficiente, com estas novas gerações. Portanto, a dimensão laboratorial, de experimentação, é muito importante neste contexto”, explica a professora universitária Neuza Pedro, do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa e investigadora nestas matérias, tendo participado em vários estudos e projetos, tanto nacionais como internacionais, ligados à integração das tecnologias na educação.

A preocupação nestes ambientes educativos inovadores é efetivamente integrar, pela primeira vez, as novas pedagogias, a tecnologia, mas também o espaço, para, quando trabalhados em conjunto, modernizar as práticas de ensino-aprendizagem. Ainda que desde há alguns anos a relação entre pedagogia e tecnologia tenha vindo a ser trabalhada, nomeadamente no contexto dos ensinos básico e secundário, a relação com o espaço não havia sido ainda analisada. “Pedagogias e tecnologias novas precisam de espaços educativos que também sejam novos, readaptados, reconfigurados e reconfiguráveis”, explica esta investigadora, que acrescenta: “É muito difícil mudar uma prática social, seja ela qual for, se o ambiente à volta não for mudado.” Estes novos ambientes assentam, assim, em três pilares fundamentais, a ser pensados em conjunto: pedagogia, tecnologia e espaço.

Competências dos “4 cês”

Hoje, o que se pretende desenvolver como competências nos alunos não é tanto o conhecimento, mas outras de ordem diferente e para as quais as salas de aula que tínhamos, e ainda temos, não foram pensadas. São as competências dos “4 cês”: critical thinking (pensamento crítico), comunicação, colaboração e criatividade. “Quando pensamos nestas quatro competências fundamentais, entende-se que é complicado fazer com que aconteçam nas salas de aulas que temos, tendo em conta as práticas que elas promovem, tanto de ensino por parte do professor como de aprendizagem por parte dos alunos. Por exemplo, não é fácil pôr os alunos a comunicar uns com os outros de forma eficiente e mais difícil ainda pô-los a colaborar”, esclarece Neuza Pedro. Por exemplo, a disposição atual das carteiras em sala de aula não ajuda a promover a colaboração, pois os alunos têm dificuldade em ver-se uns aos outros. “Se queremos que eles desenvolvam, durante os 12 anos de ensino obrigatório, estas e outras competências, precisamos de espaços que as estimulem favoravelmente, e não o contrário. Foi esta relação entre que competências temos nos alunos e que espaço e experiências educativas lhes estamos a proporcionar que levou à necessidade de termos ambientes educativos que sejam inovadores”, diz ainda, chamando a atenção para outra questão relacionada: “Não podemos esperar que as crianças sejam inovadoras por geração espontânea, quando a inovação não esteve à volta delas nem fez parte das suas experiências, pois não irão reproduzir aquilo que não viram acontecer. Temos de ser tão inovadores quanto queremos que elas venham a ser no futuro.”

“Diamantes” por lapidar

A escola, hoje, só serve um conjunto cada vez menor de crianças, pelo que é preciso potenciar e lapidar o “diamante” que todas têm, que está dentro delas em estado latente, e promover uma verdadeira escola inclusiva para todos, bem como o desenvolvimento de competências que lhes sejam úteis para a sua vida futura, quer a nível profissional, quer social. Desta forma, a par das novas competências, não podemos esquecer de fomentar cada vez mais elevados níveis de literacia da informação e dos novos media, com intensa fluência tecnológica, porque o mercado de trabalho e a vida social assim o exigem e isto deve ser feito na escola. “É uma competência que os nossos alunos de hoje e futuros trabalhadores irão precisar de ter. Por isso os novos espaços educativos inovadores também incluem tecnologia, porque os alunos, cada vez de forma mais precoce, necessitam de interagir com ela, de ter uma capacidade de análise crítica da mesma e abordá-la com uma visão pedagógica: para que é que isto me serve enquanto aprendente, para o que é que me irá servir enquanto futuro profissional? A escola tem essa responsabilidade”, defende esta especialista. E porquê? Por duas razões: primeiro, porque é um direito, e nem todos têm acesso a ela em casa; segundo, porque a própria escola necessita destas tecnologias para ser mais eficiente. Neuza Pedro clarifica: “Se, por um lado, serve as próprias ambições da escola, por que não trazê-la também para dentro da sala de aula, mas de forma natural? Hoje as crianças e jovens passam muito tempo conectados, mas sem grande orientação pedagógica. Por outro lado, este facto pode ser vantajoso para se tirar partido de algo onde o aluno se sinta confortável, levá-lo para os sítios para onde queremos que vá, e como tal mais facilmente a aprendizagem acontece.”

POTENCIALIDADE/
DESAFIO

A principal potencialidade destes espaços, destaca Neuza Pedro, é levar o professor e o aluno a repensarem o seu papel em sala de aula. “Onde se colocam, o que têm de fazer? Esta é uma grande possibilidade de se alterar a forma de pensar. Exige mudança nas práticas, no professor e no aluno. Não se pode modificar apenas um deles. O que nos remete para o principal desafio: levar isto para a frente, para que não fique tudo na mesma, caso contrário ter-se-á perdido uma grande oportunidade”, diz.

VANTAGENS A CONSIDERAR

Nos estudos que Neuza Pedro tem vindo a fazer em ambientes educativos inovadores a funcionar em algumas escolas, tem verificado que o número de vezes que o professor interage em sala de aula com cada aluno nestes espaços é muito maior, o que se revela muito importante, porque – diz –, “quando se está numa sala de aula a falar para uma turma, na realidade não se está a falar para ninguém em concreto. Se se falar nem que seja uma vez com cada aluno para perceber, por exemplo, onde ele está a ter dificuldades e dar-lhe algum feedback individualizado, é já uma grande mudança, porque o professor consegue compreender que o seu papel é sobretudo de orientação do processo de ensino-aprendizagem e que não está a trabalhar para a turma, nem para o aluno médio, mas sim para cada um individualmente”.